Salva-me, Guamuca.

Quando li Cien años de soledad pela primeira vez, eu ainda estava no nível A2 de espanhol. Obviamente, não entendi bufulhas de nada.

Com o tempo, voltei à literatura colombiana com outros olhos e outro fôlego: Los abismos, La perra de Pilar Quintana, ¿Qué hacer con esos pedazos? de Piedad Bonnett, Memorias por correspondencia de Emma Reyes, Melancolía de los feos... e, mais recentemente, reli Cem anos de solidão, agora em português.

Coincidência ou não, percebi que esses escritos falam, de um modo ou de outro, sobre a casa.
Não no sentido metafórico: o lar como refúgio afetivo ou como metáfora do amor, mas no sentido mais literal e concreto: a casa como residência, como espaço físico e simbólico de existência.

Também na literatura brasileira o tema se repete. Basta pensar em O cortiço, talvez o exemplo mais conhecido, ou ainda em Torto arado e Antes que o sol apareça. Em outras culturas, como em A boa terrorista de Doris Lessing, a casa também é cenário de disputas ideológicas e socio-emocionais.

Talvez porque a casa, em qualquer cultura, não seja apenas abrigo. É um local coletivo, uma forma de expressão social e emocional. Um espaço privado que revela o público; uma estrutura física que cria identidade, pertencimento e, às vezes, resistência.
A casa é, como escreveu Bachelard em A Poética do Espaço, um dos grandes cofres da memória e da imaginação.
Habitar é, portanto, muito mais do que morar: é poetizar o cotidiano.

Hoje a minha energia se converteu em cuidar da minha finquita (palavra que amo em espanho)l.
Meu cantinho se transformou na minha fonte da juventude, o lugar onde o meu ser faz sentido.
Essa finquita não é um simples terreno, mas um microcosmo onde se reinscreve a identidade fragmentada pela experiência moderna e pelo sofrimento psíquico.
É o espaço onde organizo meu mundo em oposição à desordem interior (um gesto que lembra o “habitar poético” de Heidegger e o “topoanálise” de Bachelard.)

Talvez seja ela, minha casa, quem me cure dessa depressão horrenda. Talvez cuidando das suculentas, plantando flores pelos caminhos, pintando paredes e trocando lâmpadas, eu consiga, pouco a pouco, me reencontrar.

Cuidar do meu lugar se tornou uma forma de resistência existencial.
Não estou apenas construindo uma casa — estou derrubando paredes para erguer novas, rompendo muros para inventar uma vida sem cercas.
Porque habitar, no fim das contas, é também reaprender a existir.

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