Malditamente Mujer

 Mulher morta pelo ex-marido. A vítima tinha 23 anos.”

— E não vai dar em nada — disse, enquanto fechava o jornal.
Não importa quem ela seja, se é rica ou pobre, não vão investigar.

Naquele dia, Pirina havia acordado brava consigo.
O sangue que escorria de sua perna não a deixava esquecer que havia nascido malditamente mulher.
Era frustrante ter que levantar com dor e ir trabalhar quando seu mundo interior desabava em meio a coágulos e ao medo de uma gravidez.

Ser mulher é uma maldição.
Durkheim dizia que as mulheres têm menos propensão ao suicídio.
Pobre viejo — pensou, com desprezo.

Fazia meses que Pirina tentava acabar com a própria vida, mas não levava a cabo nenhuma de suas ideias.
Chegou à conclusão de que era melhor não gerar despesas à família. Afinal, ela era importante, mas não o mais importante.
Até para falar de morte é preciso reconhecer a insignificância da existência.

Pirina era só mais uma mulher que, se não fosse morta pelo marido, morreria pelo grito que ecoava da sua solidão.

“Malditos seios que doem tanto” — pensou enquanto colocava o sutiã que a apertava. Mas sem ele estaria exposta aos olhos dos homens e aos olhos da própria idade, já que os seios já não eram tão firmes quanto dez anos atrás.

Ir trabalhar era um sacrilégio, e Pirina não sabia bem se era pela depressão profunda que a assombrava ou se era pela TPM — ambas opções a torturavam.

Às mulheres cabem a ternura e a alegria; não podem ficar enfezadas. Têm que aguentar tudo.
Ora o sangue quente escorrendo pelas pernas, outrora o líquido branco que não as santifica.

Pirina sentou-se na beiradinha da cama, chorou e começou o ritual.
Um corte aqui, outro ali — todos acima do cotovelo, para ninguém saber.
Não era uma faca, era só uma agulha. Não ficaria com cicatrizes.
Era apenas isso: uma maneira de deixar a dor sair.
Melhor assim do que acelerar o carro na contramão.

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