A.L.A.
Hoje, em súbito arrebato de saudade, escrevo para você. A vida cotidiana me fez ignorar a falta que eu sinto da sua proteção. O acaso nos uniu com laços familiares, mas foi o destino quem os concretizou. Nascidos na mesma cidade e no mesmo dia. No seu aniversário de oito anos eu nasci. Crescemos com uma certa proximidade. Sua mãe era minha madrinha e também a irmã favorita do meu pai. Ele a protegeu de seus próprios erros e você me protegeu dos meus. Suas cartas sempre remetiam a mim, à minha inteligência e à admiração que cultivou. Os presentes feitos com suas mãos, que você enviava, ainda que as circunstâncias fossem difíceis. Ainda me pergunto se você me amou como mulher ou como irmã. Estranhamente hoje lembrei de você, oito anos após a sua morte. O número exato da nossa diferença de idade. Quando você morreu eu já conhecia meio mundo e morava em outro país. Não pude me despedir. Não pude te ver uma última vez. Como boa marxista isso não me afetou, o mundo é a matéria e ela é concreta. Mas há algo em mim que insiste em negar o material. A saudade não é palpável e ainda assim pesa.
Você está com frio?
Você se lembra de mim?
Eu estive no pedestal dos seus sonhos e talvez por isso nunca fui feliz.
Que estranha essa sensação de ter soterrado o seu amor por mim.
Amor nunca correspondido, mas amor.
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