O Tal Neuropediatra

 Era um dia desses em que o sol parece debochar da sua cara, aquela luz incômoda que te pergunta sem pudor: “Acorda, querida. O mundo segue girando, mesmo quando você insiste em estacionar no epicentro do seu drama.”

Vinte minutos de terapia e eu já tinha feito algo que nem mesmo minhas unhas quebradas ousariam: pedi ao meu psicólogo — o mesmo que acompanha minha tragédia grega há cinco anos — que fosse duro comigo.

“Preciso de um chacoalhão, senão vou continuar sendo uma grande estúpida.”

Ele respirou fundo, ajustou a camiseta — sim, até terapeutas se preparam fisicamente antes de destruir nossas ilusões — e, com a delicadeza de um martelo hidráulico, lançou:

— Ou você é muito manipulável ou muito inocente. Me diga: você realmente acha que um homem que dá o primeiro pedaço do bolo para as amigas, e não para a esposa, trataria a amante como prioridade? Você não é namorada. Você é amante.

E, naquele instante, percebi:
o bolo não era o problema.
O problema era eu.

Eu chorava tanto que minha lente de contato escorregava como se ensaiasse para O Lago dos Cisnes — versão melancolia.

Ele continuou, agora na função de personal trainer emocional:

— Reage. Volta pra vida. Volta pras redes sociais. Vai comer, viajar, respirar. Nesse ritmo, a depressão te engole. Você tentou se matar, caramba. Não é possível que você não tenha pena de si.

E foi quando me perguntei:
Se o amor é uma guerra, por que eu insisto em lutar desarmada?

Um mês depois, ali estava eu: postando stories tímidos, fazendo cerâmica, chorando com amigas… e — no mais ousado gesto da minha fase pós-apocalipse — baixando um aplicativo de encontros.

Deslizava fotos com o entusiasmo de quem folheia um menu vegano quando só quer um bife sangrando. Procurava um fantasma: alguém que ouvisse Silvio Rodríguez, que citasse Fresas y Chocolate, que tivesse aquele olhar de dor existencial que só os meus amores sabem ter.

Resultado?
Nenhum like. Nenhum match. Nenhuma esperança.

Até que um dia…
apareceu ele.

Camiseta amarela, calça saruel, perfil lateral — um charme meio acidental, meio pensado.
Desci mais: chapéu, interesse em neurodiversidade… e o toque final do universo:

4 km de distância.

Match.
Instantâneo. Como se o destino tivesse pago o pacote Premium.

Trocamos mensagens. Migramos para o WhatsApp. No mesmo dia ele sugeriu um cafézinho. E eu, com meses de abstinência afetiva, vestida de apatia e moletom, fui.

Sentei, revisei as fotos dele e pensei:
“Mostrarei minha carinha perversa.”

Ou ao menos uma versão descabelada dela.

Quando ele chegou…
alto, bonito, olhar atento. O tipo de homem que parece ouvir até o silêncio ao redor.

— Vai pedir o quê? — perguntei.
— Uma cerveja, você quer? — disse, com um português quase perfeito.

Ponto pra ele.

— Não tomo álcool.
— Uai, por quê?
— Antidepressivos.

Agora ele vai embora, pensei.

— Neste caso, também não tomarei. Te acompanho.

Dois pontos.
Talvez três.
Empatia é afrodisíaco.

— Você é professora, né?
— Sou. E você?
— Médico. Neuropediatra.

E ali, enquanto remexia meu suco com um canudinho que fazia mais charme do que eu, pensei:
Quando foi que comecei a me apaixonar por profissionais capazes de interpretar cérebros, mas não emoções?

Mas ele era diferente. Interessado. Atento. Um pontinho de esquisitice.
Falamos de política, poliamor, adolescência, vida.
E eu percebi minhas barreiras se dissolvendo, como se cada palavra dele fosse uma gota de água quente no gelo da minha autodefesa.

Propus:
— Vamos jantar?
E ele aceitou como quem recebe um convite para continuar respirando.

Saímos de mãos dadas. Ele encontrou a minha. Eu deixei.
Nos olhos dele havia uma espécie de gentileza que eu tinha esquecido que existia.

E, de repente, eu ri.
Rir — essa pequena revolução interior.

No restaurante, a noite gelada ficou para fora.
Bruschettas, risos, confissões.
Contei que não acreditava em monogamia.
Ele também não.
E eu pensei: Talvez o amor não precise ser uma prisão, talvez ele só precise ser honesto.

Quando a conta chegou:

— Eu pago. — disse ele.
— Cartão. — falou para atendente.

— Saldo insuficiente. - disse ela.

A atendente sorriu como quem assiste a um episódio ao vivo de Sex and the City: edição latino-americana.

Ele, desesperado:

— Por favor, não vá embora.

E eu… ria. A noite inteira ri.

No fim, olhando para aquele homem atrapalhado e encantador, convidei:

— Vem comigo. Me ajuda a comprar comida pras minhas galinhas.

E lá fui eu, saltitante atrás dele.

Enquanto caminhávamos, percebi que, talvez, a pergunta nunca fosse “posso ser amada?”
mas sim:

“Posso permitir que a felicidade me alcance de novo?”

E naquela noite, no corredor iluminado de um mercado qualquer, a resposta finalmente foi:

sim.

Pela primeira vez em meses eu encontrava uma palavra perdida: felicidade.


Comentários