Deixa pra lá, Lauandinha.
Eu, que sou tão brasileira, às vezes esqueço que o Brasil é o país onde se permite que a vida siga seu curso.
Um território simbólico em que nem sempre há tempo, energia ou recursos para elaborar a dor; por isso mesmo, aprende-se a deixá-la passar. “Deixe a vida me levar, vida leva eu” disse Zeca Pagodinho.
O esquecimento, nesse contexto, não é falha de caráter, mas estratégia de sobrevivência.
Existe, na cultura brasileira, uma pedagogia silenciosa do desapego. Uma filosofia não escrita que ensina que insistir demais pode ser mais doloroso do que soltar. Que o erro não precisa virar identidade. Que a queda não é sentença definitiva.
Tenho uma inclinação curiosa: gosto de dar a mão ao insulto e torná-lo verdade. Internalizo a crítica, faço dela narrativa, carrego-a como prova de realidade. Ainda assim, às vezes esqueço que no Brasil existe uma outra lógica — quase oposta — segundo a qual o que passou, passou e se não deu certo, tudo bem.
Essa lógica não nasce da indiferença, mas do cansaço histórico. É uma ética forjada em contextos de instabilidade, desigualdade e reinvenção constante. Nela, o fracasso não é romantizado, mas também não paralisa. Ele apenas acontece.
Em 1974, no programa Cultura, Carlota e Leci Brandão cantavam:
“Se teu amor falou que não vai mais voltar: deixa pra lá
Se você ficou em último lugar: deixa pra lá
Se tudo começou na hora de acabar: deixa pra lá
Se você não passou neste vestibular: deixa pra lá
Deixa, que esta vida um dia muda, você tem que se assumir
E se o próprio amigo o acusa, você deve resistir.”
A canção enumera derrotas ordinárias: o amor que acaba, a reprovação, o último lugar, a acusação. Nada ali é extraordinário — e talvez seja justamente esse o ponto. O sofrimento é comum, partilhável, quase pedagógico.
Este ano, nada deu certo. O meu amor falou que não vai mais voltar. Fiquei em último lugar no meu próprio pódio, e tudo teve sua hora para acabar. Literalmente, um ano onde a experiência foi um fracasso.
Há uma violência particular em falhar diante de si mesma. Não é a derrota pública que mais dói, mas a íntima: aquela em que se perde a imagem idealizada de quem se acreditava ser. Ainda assim, a filosofia do “deixa pra lá” não apaga a dor — ela apenas impede que a dor se transforme em prisão.
Ao escolher Deixa pra lá como hino pessoal para 2026, não escolho a negação, mas a continuidade. Dizer “deixa pra lá” não significa minimizar a perda, e sim recusar que ela seja o último capítulo.
Talvez essa seja uma das maiores contribuições culturais do Brasil: ensinar que a vida, mesmo quando falha, não se encerra. Ela muda. E mudar, ainda que doa, é uma forma de seguir existindo.
Deixa pra lá, Lauandinha. Deixa pra lá.
Referências
BRANDÃO, Leci; CARLOTA. Deixa pra lá. Rio de Janeiro, 1974. Canção apresentada no programa Cultura.PAGODINHO, Zeca. Deixa a vida me levar. Compositores: Sérgio Natureza; Eri do Cais. Rio de Janeiro: Universal Music, 2002. 1 faixa sonora.
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