Feliz aniversário, Clarice.

    Quando Clarice Lispector escreveu o conto Feliz aniversário, ao satirizar uma aniversariante de oitenta e nove anos, abriu caminhos para uma reflexão amarga sobre a passagem do tempo e sobre o ritual social que cerca a chamada “volta ao sol”. A partir da literatura, Clarice escancara o mal-estar que habita a celebração. Eu, menos pretensiosa, abro esse mesmo caminho a partir da minha história pessoal.

    O modelo de aniversário mais próximo daquele que conhecemos hoje remonta ao Kinderfeste, surgido na Alemanha, com bolos, velas e a centralidade da criança. Com o tempo, o aniversário consolidou-se como uma prática socioafetiva, um rito de reconhecimento e pertencimento. Para alguns, esse ritual cumpre sua função simbólica; para outros — e aqui me incluo —, essa promessa ainda não se realizou.

    No Brasil, há a tradição de oferecer o primeiro pedaço de bolo à pessoa mais especial da festa. Eu nunca o recebi. Há três anos, organizei a festa de aniversário da minha mãe, e o primeiro pedaço foi entregue à minha tia, que sequer compareceu à comemoração. Há três meses, no aniversário da minha irmã, planejei tudo com cuidado, e o primeiro pedaço foi dado ao meu esposo, que nem sabia que dia era. Talvez por isso eu deseje tanto esse gesto: não pelo bolo em si, mas pelo reconhecimento que ele simboliza.

    Do ponto de vista sociológico, os rituais não existem apenas para celebrar, mas para confirmar vínculos. Como ensina Émile Durkheim, os ritos reforçam a coesão social e dizem, silenciosamente, quem pertence e quem ocupa determinado lugar no grupo. Quando esse reconhecimento falha, instala-se uma dor que não é apenas emocional, mas existencial: a sensação persistente de não ser escolhida, de não ser central nem mesmo no próprio aniversário.

    Definitivamente, não tenho sorte com aniversários — nem com os meus, nem com os dos outros. Na infância, meu pai costumava viajar com amigos justamente na data do meu aniversário. A comemoração resumia-se a minha mãe e eu, sozinhas em casa, em um silêncio que hoje reconheço como abismal. A única festa que não organizei foi a de dois anos de idade; todas as outras foram fruto do meu próprio esforço. Talvez por isso eu deseje tanto, ainda hoje, uma festa surpresa: não pela surpresa em si, mas pela prova de que alguém pensou em mim antes que eu precisasse planejar tudo.

    Reconheço que a festa de aniversário é uma prática atravessada pelo consumo e por certo grau de egocentrismo. Ainda assim, se ao menos uma vez eu tiver uma festinha, celebrarei — e pecarei sem culpa. Há desejos que não pedem coerência moral, apenas acolhimento. Minha criança interior, às vezes, encontra alguma reparação quando planejo, com seis meses de antecedência, três festas de aniversário para meus filhos. Talvez eu tente, nelas, reconstruir o ritual que me faltou; talvez eu transforme a ausência em cuidado. Entre o que não recebi e o que ofereço, sigo celebrando — não o tempo que passa, mas a tentativa insistente de pertencer.


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