Cartas de tarô
“Caso do acaso bem marcado em cartas de tarô”, eu ouvia enquanto dirigia, e me lembrei daquela noite. Havia algo no ar. Talvez a fumaça da marijuana que subia lenta enquanto conversávamos.
Éramos sete pessoas. Havíamos trabalhado o dia todo e nos reunimos para comer ramen — o ramen preparado por nossa anfitriã, picante como nunca. Ríamos alto, cansados, com aquela intimidade que só existe quando o dia já nos gastou por completo.
Foi então que minha amiga pegou as cartas.
Ela vestia uma roupa toda negra, tão negra que fazia seus cabelos loiros, mal penteados, brilharem como um descuido luminoso. Ela me olhava fixamente, como se por trás dos meus olhos pudesse ver e sentir o que eu sou como ser humano — não o que mostro, mas o que escondo.
Eu fui a primeira. E só contarei a minha tirada.
Nove cartas dispostas sobre uma almofada improvisada. Seis eram sombrias. As outras três, aterrorizantes.
Minha amiga, devagarinho, começou a leitura.
A primeira carta indicava a ruína da minha vida amorosa.
A segunda dizia que eu ficaria gravemente doente.
A terceira mostrava que eu perderia o emprego.
A quarta anunciava que o amor da minha vida se marcharia — ou partiria — sem olhar para trás.
A quinta, a sexta, a sétima, a oitava e a nona diziam, em coro silencioso, que minha vida teria de começar do zero. Que nada faria sentido. Que eu seria infeliz.
E, no entanto, o mais assustador não eram as cartas, eram seus olhos negros pousados sobre mim.
Naquela mesma noite não recebi beijos de despedida e tudo começou a terminar
PRADO, Luana. Caso sério. Compositores: Rita Lee; Roberto de Carvalho. Intérprete: Luana Prado. [S.l.]: Universal Music, 2023.
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