Amizade, ruptura e memória afetiva: notas sociológicas e autobiográficas sobre a perda de um laço

 Dedicado a uma hada del bosque

Há quatro dias, assisti a um filme infantil — Bob Esponja e a Calça Quadrada. Apesar de sua aparente simplicidade narrativa, a animação apresenta uma representação significativa da amizade: em determinado momento, Bob Esponja afasta-se de Patrick para alcançar seus objetivos individuais. O resultado é uma experiência de abandono que reverbera emocionalmente no espectador. Patrick sente-se deixado para trás. Eu também.

Essa identificação não se explica apenas pelo enredo, mas pelo que Georg Simmel (2006) define como formas de socialização, isto é, estruturas simbólicas capazes de condensar experiências humanas universais. A amizade, nesse sentido, não é apenas um vínculo privado, mas uma forma social profundamente marcada por expectativas morais, afetivas e narrativas¹.

Ao longo deste ano, tenho recorrido à canção “Deixa pra lá”, na voz de Leci Brandão e na memória estética de Cartola, como uma espécie de hino íntimo. Um verso, em particular, atravessa minha experiência: “se teu amigo te acusa, deixa pra lá”.

A acusação, quando emerge no interior da amizade, rompe aquilo que Francesco Alberoni (1989) identifica como o núcleo do laço amistoso: a confiança desarmada. Diferentemente de outras relações sociais, a amizade pressupõe a suspensão do tribunal moral permanente. Quando o amigo acusa, ele desloca o vínculo do campo do cuidado para o campo da sentença.

Essa ruptura não é apenas relacional, mas biográfica. Como observa Norbert Elias (1994), os indivíduos constroem sua identidade a partir de interdependências afetivas. Perder uma amizade profunda significa, portanto, perder uma parte do próprio enredo de si.

A experiência da perda convoca inevitavelmente a memória. Como na “Carta de Tom 74”, ecoa a pergunta melancólica: “lembra que tempo feliz, ah, que saudade”. O passado amistoso não se apresenta apenas como lembrança, mas como parâmetro afetivo do presente.

“Mesmo a tristeza daquele tempo parecia bela”. Essa beleza não reside no sofrimento em si, mas na presença do outro que o acompanhava. Aristóteles (2001), ao tratar da amizade (philia), afirma que o amigo é “um outro si mesmo”. Quando esse outro existe, a dor não é solitária; ela é compartilhada, modelada, cuidada².

Talvez por isso a tristeza atual bata com tanta intensidade à porta: não apenas pela ausência, mas pela comparação silenciosa com um tempo em que a dor era sustentada por mãos que sabiam o ofício de cuidar.

Meu aniversário, data que historicamente carrega uma melancolia persistente, tornou-se, em determinado momento, um espaço de acolhimento. Na companhia dessa amiga — figura quase mítica, bonita demais para ser real, vomitei e chorei. Esse episódio ilustra o que Zygmunt Bauman (2004) descreve como a fragilidade dos laços contemporâneos: raras são as relações que toleram a desordem do outro. A amizade verdadeira, contudo, autoriza o caos. Ela não exige desempenho, apenas presença³.

        Embora seja necessário, em algum momento, “acabar com essa tristeza”, reconheço a sabedoria inscrita no Samba da Bênção”: “pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza”. A tristeza, aqui, não aparece como patologia, mas como matéria-prima simbólica.

        Não faço samba. Faço palavras. Elas escorrem entre os dedos, pedindo tempo, pedindo recomeço. Como lembra Vinicius de Moraes em “Tristeza não tem fim”, “felicidade sim” — e talvez seja justamente por sua finitude que a felicidade seja tão intensamente lembrada. Guardo a esperança numa pequena garrafa imaginária, carregada por todos os lugares onde fui feliz. A tristeza, afinal, também é memória de alegria.

    Como na canção “Triste”, persiste o desejo: “meu pensar quer voltar àquela vida de alegria, quero de novo cantar”. Não para apagar a ruptura, mas para reconhecer que toda amizade verdadeira, mesmo quando termina, deixa marcas formativas.

A amizade não fracassa quando acaba. Ela fracassa quando não deixa vestígios. Neste caso, os vestígios permanecem — na memória, na escrita e na possibilidade ética de, um dia, recomeçar.


Notas de rodapé

  1. Para Simmel, as formas sociais operam independentemente de seus conteúdos empíricos, permitindo que experiências subjetivas encontrem reconhecimento coletivo (SIMMEL, 2006).

  2. Aristóteles diferencia a amizade utilitária da amizade virtuosa, sendo esta última baseada no reconhecimento mútuo do bem (ARISTÓTELES, 2001).

  3. Bauman observa que os vínculos líquidos tendem a evitar o sofrimento alheio por medo do compromisso afetivo duradouro (BAUMAN, 2004)

Referências bibliográficas

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Antônio de Castro Caeiro. São Paulo: Martins Fontes, 2001. ALBERONI, Francesco. A amizade. Tradução de Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Rocco, 1989. BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1994. SIMMEL, Georg. Sociologia: estudos sobre as formas de socialização. Tradução de Carlos Alberto Pavanelli et al. São Paulo: Ática, 2006.

Referências musicais citadas

    • Deixa pra lá — Leci Brandão / Cartola

    • Carta de Tom 74 — Tom Jobim

    • Samba da Bênção — Vinicius de Moraes

    • Tristeza não tem fim — Vinicius de Moraes

    • Tristeza — Tom Jobim / Vinicius de Moraes

    • Triste— Elis Regina /Tom Jobim

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