A rídicula ideia de enlouquecer
Quando terminei de ler La ridícula idea de no volver a verte, de Rosa Montero, confesso que fiquei em choque.
Não esperava que um livro sobre Marie Curie, uma das mentes mais brilhantes da história, pudesse me
atravessar de forma tão íntima. Até então, a vida da cientista era, para mim, uma abstração. Sabia dos prêmios
Nobel, do pioneirismo, da inteligência fora do comum, mas nada da mulher em sua vida privada.
Rosa Montero costura, com maestria, a biografia de Curie com reflexões pessoais, e ali entendi algo que me desarmou: mesmo as mulheres mais geniais, as mais fortes e independentes, também padecem diante do amor.
Após a morte de Pierre Curie, em 1906, Marie se envolveu com Paul Langevin, um cientista casado e pai de quatro filhos. A relação foi descoberta e, quando a esposa traída divulgou as cartas de amor à imprensa, Marie foi publicamente humilhada. A comunidade científica, que antes a reverenciava, a julgou. Ele, o amante, seguiu quase intacto. Ela, a mulher, pagou o preço de ser o segundo sexo.
Marie Curie, a única pessoa até hoje a receber dois prêmios Nobel em áreas diferentes — Física (1903) e Química (1911) —, mergulhou em uma profunda depressão. E é nesse ponto que a leitura me espelhou.
Não, não tenho a genialidade de Marie, mas entendo esse desamparo que o amor não correspondido pode provocar. Essa sensação de perder o eixo, de acreditar que o afeto poderia transformar o outro, como se o amor fosse o único agarre a vida.
Rosa Montero escreve:
“Las mujeres estamos presas de nuestro pernicioso romanticismo, de una idealización desaforada que nos hace buscar en el amado el súmmum de todas las maravillas (...) En suma: nos convencemos de que nosotras vamos a poder cambiarlo, gracias a la varita mágica de nuestro cariño.”
(MONTERO, 2013, p. 178)
Entre a dor e a lucidez, compreendemos que a liberdade não está em negar o sofrimento, mas em aprender com ele. Ser livre é reconhecer quem somos quando o amor falha, revisitar nossas conquistas e reafirmar as razões que sustentam nossa identidade.
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