A Construção do Óbvio: Leituras Críticas de Hibisco Roxo

Que vivemos na era pós-moderna, há um consenso. Ao menos dentro de certos círculos sociológicos e antropológicos. Lyotard já decretará, lá em La Condition Postmoderne (1979), o fim das “grandes narrativas” e o triunfo da incredulidade, enquanto Bauman descreveu a liquefação das estruturas sociais, essa fluidez pegajosa que não permite firmar o pé em lugar algum (no caso literalmente, sendo migrante não tenho pé em nenhum lugar).

Mas o que observo, nas minhas conversas informais, é que ainda não há um consenso sobre aquilo que venho chamando, com alguma ousadia e certa ironia, de “era pós-industrial”, apesar do termo já possuir lastro teórico consolidado (Daniel Bell, Manuel Castells, André Gorz, entre outros).

Opto aqui por deixar essa segunda teoria em suspenso e me concentrar no paradigma mais aceito: a tal pós-modernidade.

Na leitura mais superficial e confortável, a pós-modernidade parece ter ampliado a mobilidade das classes trabalhadoras: pequenas propriedades e pequenos consumos.
Uma casa simples, um lote, um sítio com meia dúzia de galinhas e uma horta que alimenta o imaginário de uma certa autonomia.
É o que, no Brasil, chamamos de produção familiar, algo muito diferente do feudo medieval, onde a produção compartilhada sempre ia parar na mesa do senhor feudal. Agora não: a produção fica com o trabalhador, que a consome.
Mas, na pós-modernidade, nem tudo é o que parece, inclusive, a própria noção de “ser” está sob suspeita.
Quem somos?
Somos algo?
Ou somos apenas o reflexo de nossas relações sociais fragmentadas?

A pós-modernidade questiona tudo: a identidade, a coerência, a autonomia, a narrativa. Nada é fixo. Nada é estável. Nada é profundo. E talvez seja justamente por isso que emerge o que chamo, com todo respeito e toda crítica, de “Fenômeno Chimamanda”.

Não estou aqui falando do meu gosto pessoal. Dos livros de Chimamanda Ngozi Adichie, o único que realmente me comoveu foi Americanah, ainda que isso seja uma história óbvia.

Refiro-me ao fenômeno de transformar questões complexas: feminismo, colonialidade, identidades, violência estrutural em discursos ligeiros, de fácil circulação, quase de autoajuda intelectual. We Should All Be Feminists virou camiseta. E tudo bem, a vulgarização também tem seu lugar. Mas às vezes, beira a obviedade.
E a obviedade beira o raso.
E o raso beira o sucedâneo.

Aqui faço minha autocrítica: este texto também é desconexo, contraditório e talvez um pouco raso mas, diferentemente de Chimamanda, não tenho ainda pretensão de mercado, então me autoperdoo.

O que realmente me impactou foi a obviedade narrativa de Hibisco Roxo.
O romance tinha tudo para ser uma história de enfrentamento sério:
violência familiar, fundamentalismo religioso, abuso de poder, colonialidade afetiva.

Mas não, a autora preferiu colocar no centro um romance improvável entre a protagonista Kambili, de 15 anos, e o Padre Amadi, um homem adulto.

Ok, romances platônicos fazem parte da literatura universal. Todos já tivemos um amor impossível. Mas transformar essa infatuação adolescente numa espécie de eixo redentor me enfurece.
Mais um clichê.
Mais uma narrativa de “homem bom” salvando a menina do mundo cruel.

A questão não é a existência do padre, mas a escolha narrativa: a violência sistêmica sofrida por Kambili é diluída, relegada a segundo plano, suavizada pela presença luminosa, sorridente e generosa de um homem.

É cansativo.
É bobo demais.
É a velha promessa romântica reembalada como empoderamento.

O problema não é só o romance. É a construção dos personagens. Papa Eugene, o pai violento, não chega a ser verdadeiramente odioso. Falta densidade. Falta a perversidade de um antagonista que merece o ódio literário. Tia Ifeoma, que deveria ser o verdadeiro eixo emancipatório da narrativa, aparece reduzida ao clichê da mulher pobre e resiliente que fala de dinheiro o tempo todo. 

Aliás, talvez Chimamanda quisesse denunciar as condições precárias das universidades na Nigéria. Talvez. Mas, do jeito que está escrito, torna-se repetitivo, quase caricatural, quase fatigante.

No meio desse ruído, perde-se tudo:
a crítica política, a reflexão estrutural, o enfrentamento do trauma.
O que sobra é a história de uma menina que começa a se abrir para o mundo porque um padre sorriu para ela.

Terminei o livro porque foi caro e porque livros caros e famosos normalmente são bons.
Este, infelizmente, não foi

Voltando à pós-modernidade: talvez o que mais me irrita não seja Chimamanda em si, mas essa fixação contemporânea no “homem bom” como solução narrativa.
Uma geração inteira de romances parece incapaz de imaginar mulheres que não são vítimas de si mesmas e não se definem pela relação com um homem.

Será que não podemos escrever romances sem homens?
Será que toda narrativa feminina precisa girar em torno da paixão? Essa paixão infantil, improvável, redentora?

É curioso e triste perceber que, em plena era pós-moderna, quando tudo deveria ser questionável e fluido, o amor romântico segue intacto, sólido, vendável, quase uma mercadoria afetiva global.

É isso que me cansa:
a pós-modernidade prometeu complexidade, mas entrega simplismos.
Prometeu ruptura, mas entrega repetição de padrões românticos.
Prometeu crítica, mas entrega obviedade.

E talvez seja esse o ponto: não é que Chimamanda seja má escritora (porque não o é) é que sua literatura, vendida como radical, acaba reforçando estruturas afetivas previsíveis.
E, francamente, nós mulheres merecemos narrativas que nos tomem como algo além do óbvio.


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