El intenso calor de la subordinación

Gioconda Belli, autora que sempre admirei e que representa com vigor a América Central no movimento feminista, surpreendentemente renuncia a essa força em El intenso calor de la luna. A escritora, que tantas vezes celebrou a autonomia e o desejo feminino, entrega-nos nesta obra uma narrativa que, em vez de libertar, aprisiona sua protagonista nos mesmos moldes patriarcais que parecia querer questionar.

O primeiro ponto que chama atenção é o tema da menopausa. Abordar esse assunto já seria, em si, um gesto político, pois trata-se de um tabu persistente, especialmente em uma sociedade que associa o valor da mulher à juventude e à fertilidade. No entanto, a maneira como Emma, a protagonista, vive essa transição decepciona: mesmo sendo uma mulher instruída, com três anos de estudos em medicina, reage à menopausa com ignorância e medo, como se houvesse internalizado os mitos mais conservadores sobre o corpo feminino.

A narrativa, que poderia ser uma poderosa reflexão sobre o envelhecimento, o desejo e a autonomia das mulheres, transforma-se numa história sobre uma “Madre Teresa de Calcutá” dividida entre dois amores,  ambos desinteressantes e medíocres. O marido, um homem sem brilho, é o símbolo da rotina sem paixão; o amante, um jovem ebanista de poucos recursos e idéias limitadas, a reduz à sensualidade de seus pés. Nenhum dos dois enxerga Emma como sujeito, apenas como corpo ou projeção.

Gioconda Belli tinha nas mãos a chance de criar uma personagem que se validasse por si mesma, que descobrisse em seu corpo e em sua idade um novo território de liberdade. Em vez disso, Emma busca ser validada pelos olhares masculinos — quer ser desejada, notada, aprovada. A protagonista se anula em dietas, procedimentos estéticos e tentativas desesperadas de agradar. Tudo para caber no critério masculino de beleza e feminilidade.

Há momentos em que a narrativa parece prometer um clímax transformador — mas logo esses lampejos morrem sob uma perspectiva frouxa e pouco convincente. Emma se interessa subitamente pela realidade política do país, mas até esse despertar é motivado por um homem. Seu filho, por sua vez, é o único personagem com carisma, mas, ironicamente, carece de referências femininas sólidas.

O desfecho é frustrante. Emma termina como a culpada pelo fracasso conjugal, dilacerada pelo ex-marido, conformada em sua dor. A imagem final é a de uma santa: sofrida, resignada, compreensiva — tudo o que o patriarcado espera de uma mulher “boa”.

El intenso calor de la luna poderia ter sido um manifesto sobre a maturidade e o poder do feminino. Em vez disso, cai na armadilha da autoajuda, reduzindo a complexidade da mulher a uma narrativa de culpa e redenção. Gioconda Belli, que já foi voz da insubmissão, parece nesta obra ter esquecido que o corpo e a palavra de uma mulher também são espaços de resistência.

Referência:

BELLI, Gioconda. El intenso calor de la luna. Barcelona: Seix Barral, 2013.

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