Entre Lugares

Tenho inveja dos escritores brasileiros que não esquecem o português na hora de escrever. Que arregaçam as mangas e colocam no papel palavras sem tradução: saudade, biruta, cafuné,  como quem planta uma bandeira em um território afetivo. Eles escrevem com a alma do idioma, com aquele sotaque cantadinho. Eu, por outro lado, perdi o jeitinho, o gingado do samba no pé.

Escrevo em português com referências em espanhol, e em espanhol com referências do Brasil. Sou uma fronteira ambulante, um corpo bilíngue que tropeça em suas próprias palavras. Cada frase é um terreno movediço onde se misturam o usted e o você, o chevere e o legal. E, no meio dessa mistura, às vezes ninguém me entende. Nem lá, nem cá.

Penso com meus botões: devo voltar pro Brasil? Se fico por aqui, não seria melhor esquecer o português de uma vez? Deixar que ele adormeça no fundo da memória, mas não consigo.
O português me escapa pela boca quando me distraio. Aparece num murmúrio, num pensamento, num “uai” que insiste em resistir. Então canto MPB baixinho, quase em segredo, já que perdi o sotaque e, quem sabe, um pouco da coragem de pertencer.

No entanto, há algo de doce nesse desenraizamento. Quando a cumbia balança meu coração, percebo que ser estrangeira também é uma forma de liberdade. Entre o português e o espanhol, entre o samba e a cumbia, eu invento um novo idioma que Lugones chama de entre lugares.


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