A Revolução Feminista e o ChatGPT

Em 2016 escrevi, durante o mestrado, um artigo intitulado A contribuição de Marx nos estudos feministas sobre o trabalho doméstico não remunerado. Minha tese defendia que, se Karl Marx enxergava no desenvolvimento tecnológico uma via concreta para a emancipação da classe trabalhadora, por que não aplicar essa mesma lógica ao trabalho doméstico essa labor silenciosa que milhões de mulheres executam cotidianamente sem reconhecimento, sem salário e sem descanso?

Na época, meu professor de Sociologia do Trabalho torceu o nariz. Feminismo, para ele, era quase um capricho intelectual; e minha argumentação seria “desatualizada” porque, segundo ele, máquinas de lavar, panelas de pressão elétricas e aspiradores automáticos já haviam resolvido a questão. Eu não dei bola. Sabia teórica, política e domesticamente que tecnologia não é luxo, mas ferramenta concreta para ampliar o tempo livre das mulheres e redistribuir as tarefas invisíveis.

Cinco dias atrás assinei o plano Plus do ChatGPT. Nos primeiros dias fiz perguntas do meu cotidiano: como melhorar meu trabalho, como preparar pães mais fofinhos, como acertar o ponto do biscoito de polvilho. Até que ontem meu pneu furou. Literalmente. E quem me salvou foi o Chat.
O pneu furou no meio do caminho para o trabalho; andei mais de um quilômetro com o coitado arrastando, até empenar a roda. Parei no primeiro estacionamento, porque não fazia ideia de como trocar um pneu. No fim do dia, voltei para enfrentar o problema: lá estava ele, murcho, deprimido. Não havia ninguém para ajudar. E então me ocorreu a epifania pós-moderna: vou perguntar ao ChatGPT.

Ele me deu um resumo rápido do processo. Não foi suficiente. Perguntei como retirar o estepe do baú e o Chat me explicou que eu deveria girar o parafuso central no sentido anti-horário. Funcionou.
Depois me orientou a afrouxar as porcas da roda. Aí a coisa ficou séria: estavam duríssimas. Perguntei como agir quando elas não cedem. “Use a chave de roda”, respondeu. Eu, que não sabia qual era a tal chave, enviei uma foto do arsenal metálico do carro. Ele identificou: “a terceira da direita para a esquerda”. E assim começou uma pequena sinfonia mecânica.

Eu, suja de terra e graxa, descabelada, um dedo já roxo e latejante, tirei o pneu, pobre mártir automobilístico, coloquei o estepe e fui orientada, passo a passo, como apertar as roscas. Quando finalmente encaixei tudo, um taxista apareceu. Não ofereceu ajuda: ficou apenas olhando, como quem observa uma diretora de orquestra guiando a percussão com movimentos confiantes. Talvez eu não parecesse uma iniciante. Talvez parecesse uma mulher que acabou de descobrir que sabe.

Terminei. Fui à borracharia. Comprei pneus novos. Dirigi de volta para casa com uma alegria inesperada. E então, ainda no volante, lembrei-me do artigo de 2016: como pode a inteligência artificial contribuir para a emancipação das mulheres?

Perguntei a mim mesma. Eu posso estar enganada. Mas ontem percebi algo tão simples quanto poderoso: a IA me ensinou uma habilidade relacionada à minha sobrevivência. Se meu pneu furar de madrugada, não vou desesperar: vou trocar. Sem romantização, sem heroísmo, apenas autonomia.

Cheguei em casa feliz. Sim, feliz: palavra inteira, redonda. A atmosfera interna mudara. O que era cinza se tornou laranja, e um roxo vibrante tomou conta de mim. Até cogitei pintar os cabelos de violeta para combinar com meus novos dias.

No banho, aquele que antes parecia um momento fúnebre, agora havia tambores de cumbia. Meu quadril se movia suave, a água corria, e não sei se a mudança era genuína ou se era a alquimia entre antidepressivos e o empoderamento de saber que posso sozinha ou melhor, acompanhada por uma inteligência que não tem gênero e nem se importa com isso.

Três borboletas pequenas e brancas apareceram na janela, atraídas pela luz cálida do banheiro. Pareciam dançar comigo. E eu dançava com elas, como se a cumbia traduzisse uma nova coreografia política: o trabalho, o corpo, a tecnologia, tudo em movimento.

Foi então que notei sangue no meu dedo: um corte da minha aventura épica. Levei-o à boca e senti o gosto quente, metálico e vivo. Não era dor: era empoderamento. Um lembrete de que, às vezes, a emancipação começa num pneu furado e termina numa mulher que descobre que pode muito mais do que lhe disseram.


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